Influência do envelhecimento da população no setor da saúde

, Sem categoria
Imagem: Divulgação

Imagem: Divulgação

O aumento da expectativa de vida e o envelhecimento já são percebidos em diversos países e também já chega no Brasil. Com isso, hospitais e profissionais devem estar preparados para receber esta demanda. Acerca disso, Paulo Sergio Pelegrino, Diretor Técnico de Saúde do Instituto Paulista de Geriatria e Gerontologia (IPGG) José Ermírio de Moraes comenta sobre os maiores desafios da saúde diante deste cenário.

Atualmente, o processo de envelhecimento populacional vem se tornando tema de preocupação entre os organismos nacionais e internacionais. A partir disso, como o sr. (a) acredita que os hospitais/clínicas devem se preparar para esta tendência?

 O aumento na expectativa de vida e o envelhecimento da população é seguramente uma grande conquista, fruto da melhoria das condições de vida, dos avanços na saúde entre outras. É lógico que com o envelhecimento populacional, houve mudanças significativas nas formas de adoecer e morrer. Anteriormente as preocupações estavam voltadas para doenças agudas e infecciosas, atualmente a preocupação são as doenças crônicas, as perdas funcionais e a qualidade de vida entre outras. Os conhecimentos e habilidades necessárias para uma atenção adequada às pessoas idosas devem permear todos os serviços que atendam aos idosos. Esta preocupação passa pela necessidade de acesso e ambiente físico adequado, comunicação com os idosos, compreensão do processo de envelhecimento, conhecimento e abordagem correta dos principais problemas que acometem os idosos, trabalho em equipe, entre outras.

Como o Sr. analisa as políticas públicas tomadas quanto ao envelhecimento populacional?

 Tivemos avanços significativos. Acumulamos duas Conferências Mundiais sobre Envelhecimento, a Política de Envelhecimento Ativo da OMS, duas Conferências Nacionais, a Política Nacional do Idoso, Estatuto do Idoso, Fundo Nacional do Idoso e diversas outras Políticas Setoriais e, neste cenário, só falta caminhar para uma Convenção Internacional sobre Direitos do Idoso. Em que pese os diversos avanços previstos, a implementação destas políticas e sua execução continua sendo um desafio que exige compromisso de governos e participação de toda sociedade.

Quais são as principais medidas para proporcionar um envelhecimento ativo da sociedade e quais são as vantagens?

Envelhecimento Ativo se consegue através de oportunidades para a saúde, participação, proteção e educação. A saúde é um bem que devemos promover ao longo de toda a vida, a participação se atinge quando somos plenamente conscientes de nosso papel de cidadãos, a proteção requer o fortalecimento das instituições capazes de assegurar a garantia dos direitos e, claro, sem educação não há progresso em nenhuma área do conhecimento humano. Esperamos que os idosos vivam com mais qualidade de vida, sejam mais participantes e tenham seus direitos respeitados.

O Sr. acredita que os hospitais brasileiros estão preparados para esta tendência?

 Cuidar da saúde é um desafio diário para todos os níveis assistenciais, acho difícil falar em estar preparado ou despreparado, os gestores devem promover melhorias constantes, os investimentos nunca param e o treinamento de equipe também não. A saúde estaria muito ruim se pensássemos só na assistência hospitalar, precisamos ter o foco que vá muito além da medicina curativa, ações de prevenção, promoção de saúde e reabilitação são igualmente importantes. Para que tenhamos um envelhecimento com saúde temos que dar boa assistência desde o pré-natal, passando por todos os ciclos de vida até a assistência geriátrica e esta será boa quando a assistência à saúde como um todo for boa.

 Quais são os principais avanços na medicina acerca da geriatria e gerontologia no Brasil?

 A medicina evolui paralelamente como todas as demais ciências, o avanço no controle da natalidade, a diminuição da mortalidade infantil e erradicação de doenças através da vacinação, aprimoramento dos meios diagnósticos, desenvolvimento e melhorias nos medicamentos, novas técnicas cirúrgicas, campanhas sobre mudanças de estilos de vida e maior acesso da população aos serviços de saúde tem favorecido uma assistência melhor e com isso a população tem ficado mais longeva e com possibilidade de ter melhor qualidade de vida nesta fase da vida. Não vejo um aspecto isolado e decisivo no avanço da medicina, mas um conjunto de fatores. A geriatria surgida no Brasil após a segunda metade do século passado trouxe a possibilidade de um melhor cuidado com a saúde dos idosos, maior conhecimento sobre as doenças e seu manejo nesta fase da vida, aliado a uma perspectiva de estarem juntas as demais intervenções, igualmente válidas, que profissionais com diversas formações podem contribuir. A geriatria é um campo do conhecimento médico e a gerontologia abrange todas as demais categorias profissionais.

Como o Sr. analisa o investimento do Brasil para esses ramos da medicina?

São poucos os serviços que dedicam exclusivamente ao atendimento de idosos. A maior parte dos idosos são atendidos junto com outras faixas etárias e os recursos não são distintos. Com o envelhecimento populacional e maior prevalência de doenças crônicas, podemos dizer que os idosos são responsáveis por consumirem uma grande parcela dos recursos destinados à saúde. Seguramente, são aqueles que mais consomem medicamentos, internam com mais frequências, permanecem mais tempo internados e oneram também suas famílias por necessitarem de mais cuidados. Estes recursos não são destinados de forma separada e também não há necessidade disso. Por outro lado, há necessidade de recursos para melhorar o acessibilidade dos diversos equipamentos, treinar equipes de profissionais, facilitar a gestão de cuidados e doenças crônicas, programas de prevenção de condições e agravos próprios para a faixa etária.

 O Sr. Acredita que o Sistema Único de Saúde estaria preparado para receber a essa população? Quais os maiores problemas a serem enfrentados?

O envelhecimento, como afirma a OMS, ao mesmo tempo em que é uma conquista e um triunfo para toda a humanidade é também um desafio. Setores como saúde, habitação, transporte, assistência social, previdência social e muitos outros tem que pensar em como atender melhor esta população. Quero dizer com isso que o desafio não é apenas da saúde. O Brasil, como todos os demais países em desenvolvimento não se preparou para o envelhecimento que ocorreu muito rápido, consequentemente todos os setores envolvidos na assistência aos idosos não o fizeram.

Como o Sr. analisa a formações do profissionais especializados neste segmento? Há falta ou não destes médicos no Brasil?

 Passamos por um momento onde nossa Presidente da Republica fala em trazer médicos de outros países para atuar no Brasil, não há nenhuma especialidade onde existam médicos suficientes. Particularmente, o número de geriatras no Brasil não supera os 700 e este número é insignificante diante do universo de mais de 20 milhões de idosos.