TI em hospitais: Non Duco, Ducor – por Klaiton Simão

Klaiton Simão

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Klaiton Simão – CIO da Rede São Camilo

Klaiton Simão – CIO da Rede São Camilo

Não, você não leu errado. Também não foi um erro de digitação. Tampouco me enganei por conta do meu restrito repertório de latim que, a bem da verdade, acaba aqui.

O título está realmente diferente do brasão paulistano, que traz os dizeres “Non Ducor Duco”, frase em latim que significa, no caso da Paulicéia, “Não sou conduzido, conduzo”, evidência histórica do passado glorioso da minha querida, combalida e arrogante São Paulo, que acaba de aniversariar.

Mas eu inverti os dizeres da frase para inseri-la no contexto da TI hospitalar dos dias atuais. Houve um tempo em que a TI conduzia, por assim dizer, o desejo por inovação tecnológica no ambiente hospitalar. De forma às vezes esquizofrênica, é verdade. Faltava alinhamento, sobravam convicções. A TI “empurrava” a organização, pressionando, demandando, quase infernizando a vida dos profissionais da Saúde, para que aderissem às novidades e tendências tecnológicas da época. Durante anos, a TI foi uma locomotiva, cujo maquinista não sabia para onde ir. Profissionais da Saúde rosnavam ao ver um profissional de TI perambulando pelos seus domínios; profissionais de TI reclamavam da lentidão e da resistência dos usuários para adotar as novidades, agregassem elas valor ou não, o importante era mudar. Até que o dinheiro começou a ficar escasso.

As necessidades de informação de qualidade no tempo certo, de fluxos estruturados de processos, de eficiência operacional, etc., foram o gatilho para a mudança de mentalidade. A exemplo de outras indústrias, o fim da fartura foi também o fim da era do desperdício e da ineficiência, obrigando todos os atores a repensar sua maneira de trabalhar, e buscar as contribuições que as diferentes áreas de conhecimento poderiam proporcionar. Profissionais da Saúde começaram a perceber o valor da Tecnologia da Informação para o exercício da sua atividade profissional, profissionais de TI começaram a perceber que poderiam auxiliar no processo assistencial, ao invés de “monitorar” e “gerar indicadores” sobre os processos assistenciais apenas. Hoje, a TI tornou-se um dos vagões, cedendo o posto de locomotiva à Sua Excelência, o Negócio.

Por “Negócio”, entenda-se o cliente interno – toda a empresa – e o cliente externo, este último em todas as suas variações: pacientes, acompanhantes, fontes pagadoras, governo, agências reguladoras, etc. É ele, o Negócio, quem sabe o que é prioritário, e finalmente assumiu seu papel de vetor.

Isso não é ruim, pelo contrário, é uma excelente notícia, desde que nós, profissionais de TI que atuamos neste segmento, estejamos preparados para assimilar e compreender esta mudança: não foi a TI enquanto conceito que perdeu espaço (muito pelo contrário), foram os tradicionais departamentos de “informática” dos hospitais que deixaram de fazer sentido, há muito tempo.

Nunca entendi bem certas frases de efeito que volta e meia ouço, como por exemplo, que “a TI é o centro do negócio”; parece-me que esta afirmação só pode ser verdadeira se estivermos falando de uma empresa de TI, não? No caso de um hospital, como classificar a TI como o centro do negócio, se o nosso negócio é cuidar da saúde das pessoas? Desde o bombástico artigo “IT doesn’t matter”, de Nicholas Carr (*), começamos a abandonar a ideia de reivindicar o posto de locomotivas em favor de Sua Excelência, o Negócio, pois percebemos que somos parte essencial dele, de fato um dos mais importantes vagões, mas não somos o elemento principal, portanto não deve partir de nós o direcionamento da mudança. A nós, cabe garantir que ela aconteça.

E a locomotiva do Negócio é implacável, nunca descansa, frequentemente frustra todas as previsões sobre seu futuro, muda de direção a toda hora, e não dispõe de tempo, nem de paciência, para nos perguntar se estamos entendendo para onde ela está indo, ou se estamos preparados para lhe dar o suporte necessário. Ela avança, indômita, rápida, imprevisível, e precisa do conjunto de vagões (TI, finanças, operações, práticas assistenciais, marketing, RH, qualidade, riscos & compliance, relações governamentais, entre vários outros) sempre em perfeitas condições, prontos para acelerar, frear, acelerar de novo, mudar a rota bruscamente, de um dia para o outro.

Nosso papel hoje é fundamental, não podemos decepcionar a Locomotiva do Negócio. Assim como ele, o Negócio, mudou, nós também mudamos: não falamos mais sobre throughtput da rede, kernel release do SO ou versão do RDBMS, nossos colaboradores e fornecedores devem fazer isso por nós, ainda que sob nosso olhar atento. Falamos agora sobre segurança do paciente, margem de contribuição, suporte à decisão clínica, sustentabilidade do negócio, perfil epidemiológico, legislação, pesquisa e desenvolvimento, gestão do conhecimento, inteligência competitiva, etc.

Nosso desafio hoje, caro CIO em Saúde, é: estamos preparados para sermos brilhante e pró-ativamente conduzidos, pelo e para o Negócio?

(*): Harvard Business ReHarvard Business Review, Maio de 2003

Klaiton Simão